Pesquisa de Demanda do Itaipu Parquetec e Fundo Iguaçu aponta avanço de visitantes de primeira viagem, liderança do mercado paulista e ocupação hoteleira de 62%; mobilidade pública e conectividade são os principais desafios do destino.
Foz do Iguaçu viveu em julho de 2026 uma reconfiguração virtuosa em sua dinâmica de visitação. Tradicional polo receptor das férias de inverno, o destino paranaense registrou avanços estruturais na atração de novos viajantes, aumento da demanda aérea e consolidação da hotelaria tradicional. É o que aponta a mais recente edição da Pesquisa de Demanda Turística de Foz do Iguaçu, realizada pelo Observatório Nacional de Turismo Sustentável do Itaipu Parquetec, no âmbito de projeto financiado pelo Fundo Iguaçu.
O levantamento ouviu 741 turistas entre os dias 10 e 18 de julho — conferindo uma margem de erro reduzida de 3,67% sob intervalo de confiança de 95% — e trouxe dados comparativos com o mesmo mês de 2025. O diagnóstico desenha um turista de maior poder aquisitivo, altamente focado em lazer e propenso a circular pelos municípios vizinhos da Tríplice Fronteira, ao mesmo tempo em que cobra melhorias urgentes em mobilidade coletiva, conectividade digital e percepção de custo-benefício.
Salto aéreo e avanço da rede hoteleira
Um dos destaques mais contundentes do estudo é a transformação na forma de chegada ao destino. O transporte aéreo registrou um salto expressivo: passou de 27,7% em julho de 2025 para 42,2% em julho de 2026, ultrapassando o carro próprio (34,3%) e tornando-se a principal via de acesso à cidade. A mudança reflete diretamente a malha com mais voos ofertados para o Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu (crescimento de 28,4% segundo a Anac) e amplia o alcance para turistas de origens mais distantes.
Essa conectividade aérea refletiu diretamente no faturamento dos meios de hospedagem formais. Os hotéis absorveram 62,1% dos visitantes, contra 48,2% registrados em julho do ano anterior, uma alta de 13,9 pontos percentuais. As casas de aluguel por temporada também subiram, passando a 14,6%, enquanto a opção por casas de parentes ou amigos recuou para 11,4%.
A taxa de pernoite permaneceu sólida em 80,4%, com tempo médio de estadia de 4,03 dias (praticamente estável frente aos 4,06 dias de 2025). As viagens com 2 e 3 pernoites concentraram 50% das estadias, mantendo uma base fiel de quase 20% de turistas que estendem o roteiro por cinco noites ou mais.
Renovação de público e novo mapa de emissores
A pesquisa apurou que 46,3% dos turistas estavam em Foz do Iguaçu pela primeira vez, um avanço de 4,4 pontos percentuais em relação aos 41,9% verificados em 2025. A taxa de revisita situou-se em 53,7%, mostrando que a cidade é capaz de manter um público recorrente ao mesmo tempo em que capta novas fatias de mercado.
O motor principal das viagens segue sendo o descanso: 74,4% foram motivados por férias ou lazer, crescimento de 8 pontos percentuais frente ao ano passado (66,4%). Em contrapartida, as viagens cuja razão primordial eram apenas as compras caíram de 13,2% para 5%. No entanto, a atividade comercial não desapareceu: ela foi integrada à experiência turística. Cerca de 23,9% dos entrevistados afirmaram ter feito compras no comércio de fronteira durante a estadia.
No recorte geográfico, os brasileiros representaram 76,1% da demanda. No ranking dos estados: São Paulo consolidou-se na liderança isolada, com 31,2% (ante 29,2% em 2025); O Paraná respondeu por 22%, reduzindo sua fatia frente ao ano anterior (31,4%); O Rio de Janeiro assumiu a terceira colocação, subindo para 7,9% e desbancando Santa Catarina (7,8%).
No âmbito internacional, a Argentina continuou como o principal país emissor, porém sofreu forte retração: caiu de 18,5% para 9%, reflexo da perda do poder de compra e da conjuntura econômica do país vizinho. Por outro lado, mercados emissores de fora do Mercosul ganharam tração: a soma de outros países estrangeiros atingiu 9,5%, ante 3,4% em 2025.
Perfil qualificado e força das famílias
As viagens em família sustentam a base da alta temporada de inverno, somando 55,8% das configurações de grupo. Casais sem filhos vieram na sequência com 17,5%, superando os grupos de amigos (12,3%) e viajantes solo (10,2%).
O público é majoritariamente feminino (56%), com predomínio da faixa de 32 a 50 anos (48,8%) e expansão expressiva de jovens de 25 a 31 anos (18,1%). O nível de escolaridade é elevado: 42,7% têm ensino superior completo e 17,8% pós-graduação, com a renda familiar mensal concentrando-se nas faixas de 6 a 8 salários mínimos (17,5%) e de 8 a 10 salários mínimos (12,3%). O gasto médio total por pessoa na viagem situou-se entre R$ 1.501,00 e R$ 3.000,00 para 32,5% da amostra.
Roteiros no entorno: a força da Tríplice Fronteira
A pesquisa comprovou que a experiência em Foz do Iguaçu transcende os limites municipais. 60,9% dos turistas visitaram cidades vizinhas, com grande peso para Ciudad del Este, no Paraguai (62,9% dos que fizeram passeios externos), e Puerto Iguazú, na Argentina (31,3%).
A edição de julho de 2026 investigou ainda a demanda reprimida por atrativos no entorno do Parque Nacional do Iguaçu (PNI). Entre as preferências de experiências complementares destacam-se: Observação de fauna (18,4%); Turismo cultural (16,7%); Passeios náuticos e águas (13%); Turismo rural (10,7%) e Astroturismo (10%).
O estudo identificou ainda que mais de 75% dos viajantes preferem passeios de até duas horas de deslocamento a partir de Foz do Iguaçu, o que aponta a viabilidade imediata para roteiros curtos de meio período nas cidades lindeiras, agregando produtos artesanais e agricultura familiar.
Avaliação de serviços: encanto com atrativos e alerta em transporte e conectividade
Na apuração de satisfação via metodologia Net Promoter Score (NPS), os serviços estritamente voltados à experiência do visitante obtiveram aprovação massiva: Atrativos turísticos: 70% de promotores e apenas 8% de detratores; Aeroporto Internacional: 64% de promotores; Gastronomia: 61% de promotores; Hotelaria: 60% de promotores; Segurança pública: 57% de promotores (avanço significativo ante os 49% do ano anterior).
Em contrapartida, as maiores vulnerabilidades recaem sobre a mobilidade e serviços urbanos:
Transporte público: lidera a insatisfação com 46% de detratores (frente a 30% em 2025), marcado por queixas de superlotação em linhas cruciais, como a Linha 120, e falta de previsibilidade;
Terminal Rodoviário: 35% de avaliações detratoras, reflexo de queixas sobre infraestrutura, conforto e atendimento;
Preços praticados em geral: registraram 45% de avaliações neutras e 29% de detratores, com percepção recorrente de custos elevados em itens de alimentação e tíquetes;
Conectividade: o sinal de internet móvel e Wi-Fi no destino foi classificado com 29% de detratores, com relatos de instabilidade nas redes mesmo em áreas centrais e atrativos icônicos.
Desafios para a gestão do turismo
Os números deixam claro que Foz do Iguaçu vive um ciclo de amadurecimento e alta competitividade. Contudo, transformar a neutralidade e os pontos de atrito em fidelização exigirá investimentos coordenados entre poder público e setor privado. A mobilidade urbana de qualidade, a modernização dos pontos de recepção terrestre e a garantia de infraestrutura digital surgem como pilares inegociáveis para garantir que o crescimento do fluxo turístico se traduza em valor agregado sustentável para toda a região.
Reportagem publicada pelo portal www.silvanacanal.com.br
Foto: Silvana Canal MKT

